27 de agosto de 2009

Orações Insubordinadas - aforismos de escárnio e maldizer

( O estranho mundo de Carlos Castelo)

Máxima, sentença, adágio, apotegma. Esses termos meio vetustos servem para descrever um dos mais ilustres gêneros literários: o aforismo – ou seja, a frase curta, a tirada de espírito, cheia de agudeza e ironia. Dos epigramas de Marcial, na Antigüidade latina, às reflexões do Oráculo Manual do barroco Baltazar Gracián ou dos moralistas franceses (Pascal, La Bruyère, Chamfort), as formas breves criaram uma tradição que, durante o romantismo, com Novalis e Schlegel, virou “estética do fragmento”.

No Brasil, modernistas como Murilo Mendes (em O Discípulo de Emaús) e Aníbal Machado (em Cadernos de João) se revelaram aforistas de primeira linha, à altura dos maiores cultores do gênero, como o espanhol Ramón Gómez de la Serna, o austríaco Karl Kraus e o romeno Emil Cioran.
Aforismos mostram o avesso do avesso das coisas, são clichês em negativo, antídotos contra o senso-comum e o pedantismo.

Por isso não se confundem com provérbios da sabedoria popular ou com as frases feitas de salão citadas entre “bocejos de enfado”. Essa expressão, aliás, foi cunhada por Machado de Assis justamente num capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas composto só de fragmentos, apresentados comicamente como “bocejos de enfado” que poderiam “servir de epígrafe a discursos sem assunto”: “Matamos o tempo; o tempo nos enterra” ou “antes cair das nuvens do que de um terceiro andar” são alguns dos epigramas satíricos do narrador defunto.

Machado enxergou o poder desconcertante das formas breves. Vários diálogos e comentários dos narradores de Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas encerram frases cheias de bossa e paradoxo, que poderiam ser isoladas e lidas como sentenças escritas “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

Ao mesmo tempo, como caricaturista de nossa vocação bacharelesca, ele bem sabia que, uma vez transformado em bordão, o aforismo se enrijece e vira símbolo de afetação. “No fundo, o que um aforismo mais odeia é converter-se em citação”, escreve o espanhol (radicado no Rio de Janeiro) Adolfo Montejo Navas, poeta, crítico de arte e autor do livro de aforismos Pedras Pensadas (também publicado pela Ateliê).

E se hoje muitas das frases de Sêneca, Maquiavel e La Rochefoucauld servem de pretexto para ostentar erudição e desenvoltura social, nossos melhores aforistas são aqueles que rejeitam a machadiana “teoria do medalhão” (um saber postiço e vazio) e preferem a tirada sarcástica feita no calor da hora, a observação sobre situações concretas, revolvendo nosso ridículo e nossas pretensões.

No Brasil, já existe um gênero literário – a crônica – que trouxe a literatura para o rés-do-chão, fazendo da vida miúda sua matéria-prima e, da ironia, um modo de olhar as mazelas da comédia humana. Muito menos evidente é a linhagem dos autores que usam o aforismo para zombar e criticar com engenho e riso.

Entre os maiores estão Luis Fernando Verissimo – que não por acaso insere em várias de suas crônicas de jornal subseções com frases lapidares – e Millôr Fernandes – cuja principal antologia de fragmentos, Millôr Definitivo, tem um sugestivo subtítulo: A Bíblia do Caos (de fato, uma implacável reunião de aforismos sobre virtualmente todos os temas – costumes, sexo, política, economia, corrupção, arte, indústria cultural – da barafunda que nos cerca).

É nesse time que joga o compositor, publicitário e escritor Carlos Castelo, autor de Orações Insubordinadas. Aqui também o subtítulo é eloquente: Aforismos de Escárnio e Maldizer. Castelo não faz máximas com pretensões universalizantes, não quer nos revelar verdades sobre a humaine condition (à maneira dos moralistas franceses) ou criar uma forma de exprimir, pelo recurso ao fragmento, nossa alienação em relação à totalidade etc. etc.

Aliás, Castelo talvez ache que todo palavrório teórico não passa de uma baita empulhação – ou simplesmente frescura. Mas, convenhamos, alguém que escolhe um subtítulo que remete à tradição ibérica das “cantigas de escárnio e maldizer” não pode reclamar de lhe quererem descobrir referências cultas debaixo do tom trocista.

Quem conhece o trabalho de Carlos Castelo como letrista do conjunto Língua de Trapo (no qual assina as músicas como Carlos Melo) sabe que a esculhambação e o humor dessas letras estão cheias de menções que exigem ouvintes com um mínimo de repertório. Basta um exemplo: no “Samba-enredo da TFP” – sátira à “Tradição, Família e Propriedade”, uma das mais obtusas e arcaicas instituições da Pindorama –, ele diz que o fundador do movimento “lia Mein Kamf no banheiro” (referência ao livro Minha Luta, de Hitler), faz um breque que cita o monsenhor Marcel Lefebvre (ícone do conservadorismo católico francês) e a poesia de Ezra Pound (vanguardista norte-americano que aderiu ao regime de Mussolini) – para finalizar com o verso genial: “E hoje, sou fascista na avenida”, impagável e grotesca imagem do líder da TFP evoluindo como passista de escola de samba...

Em Orações Insubordinadas, a toada é a mesma, agora não mais tendo como pano de fundo o regime militar da época em que surgiu o Língua de Trapo, mas os neoconservadores que, sob legendas partidárias de esquerda, perpetuam o imobilismo do país – como no aforismo que abre o livro parodiando um surrado tema da sociologia brasileira: “Nosso maior problema é essa mistura do público com a privada.”

Alguns temas são recorrentes, como o contraste entre o discurso triunfalista da nacionalidade e a corrupção e o autoritarismo reinantes (“Brasil sonha ser a fazenda do mundo. Capataz e coronel não faltam.”) – e o mesmo se aplica ao alegre conformismo que a cultura popular, em especial a música e os programas de TV, tenta nos incutir (“Fora essa sensação de caos, desesperança e desgoverno, até que vamos indo muito bem.”)

Em outros momentos, Castelo trata de fenômenos bem mais recentes, como a internet, a questão ambiental (e os eco-chatos), o narcotráfico, o mundo das celebridades, a explosão da pornografia (“Aí a atriz pornô falou: ‘Você está gozando na minha cara, é?’”) e dos fundamentalismos (“A maioria dos governos muçulmanos aboliu o direito de ir e rir.”).

Por trás de seus jogos de palavras com ditos e provérbios, de suas inversões do senso-comum, há referências a autores e obras que já foram incorporados ao linguajar corrente, como no aforismo “A Revolução só acontecerá quando os miseráveis perceberem que não têm mais nada a perder” – que ecoa a frase final do Manifesto Comunista, em que Marx e Engels dizem que os proletários não têm nada a perder, “a não ser os grilhões”. E se não cai na esparrela da militância de fachada, Castelo tampouco deixa de cutucar a embromação marqueteria que tenta limpar a barra de banqueiros e empresários: “Pior que rico com consciência social só milionário apoiando ONG”; “Filantropo é um milionário com sentimento de culpa”.

Queria terminar essa apresentação com um aforismo clássico, o lema “castigat ridendo mores”, para dizer que o humor desse livro corrige nossos piores hábitos fazendo rir deles – mas aí fiquei imaginando o Castelo, incrédulo, franzindo a sobrancelha diante do latinório pomposo.

Afinal, o que o coloca no distinto rol de Millôr e Verissimo é justamente a linguagem desinflada, a piada desentranhada da fala da rua e da retórica oficialesca, em suma, o faro para o cômico e para as contradições do presente – satirizados na linguagem do presente. Se bem que, do jeito que a coisa vai, os temas de Orações Insubordinadas tendem a se perpetuar – o que mostra que esses “desaforismos” tão atentos ao que é imediato têm tudo para continuar valendo por mais algumas décadas...

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